Saúde

Baixo estoque do kit intubação preocupa

Sem conseguir comprar medicamentos, hospitais não sabem por quanto tempo ainda conseguem prestar assistência

Divulgação -

Além da preocupação com as Unidades de Terapia Intensa (UTI) estarem completamente lotadas, surge um novo agravante, o baixo estoque dos medicamentos usados no chamado kit intubação. São anestésicos, relaxantes musculares e outros produtos necessários para o tratamento dos pacientes com Covid-19. Com a alta procura devido ao aumento de internações para o tratamento de casos graves da doença, o fornecimento foi prejudicado, além do preço de custo, que ficou mais caro.

Para manter a assistência, o Hospital Universitário São Francisco de Paula precisou pedir medicamentos emprestado para outros hospitais e só possui estoque para mais alguns dias. O que mais preocupa a instituição, é com os chamados bloqueadores neuromusculares de longa duração, onde estoque está muito baixo. Os demais sedativos estão com estoques baixos, mas ainda com uma margem de segurança. Segundo o diretor de assistência do hospital, Edevar Machado, são feitas tentativas de compras, mas devido a escassez nacional, a comercialização é abaixo da necessidade de reposição. O hospital até tentou importar, mas sem sucesso. "Realmente é uma situação bastante crítica, em que compromete bastante a capacidade assistencial. Esperamos que haja ação mais imediata do Estado para encaminhar essas medicações aos hospitais. Mantemos a esperança em conseguir disponibilidade na indústria nos próximos dias" destaca Machado.

A Santa Casa de Misericórdia também está com estoque de medicamentos abaixo do necessário. Segundo a assessoria de comunicação do local, já foi realizada a compra dos remédios que devem ser entregues na próxima segunda-feira (22). Na Beneficência Portuguesa, segundo o administrador do local, Armando Manduca, por enquanto está conseguindo manter o estoque, mesmo com a atual dificuldade de compras. "Fazer uma previsão (de quanto vão durar os medicamentos) é difícil, já que o consumo varia conforme a quantidade de pacientes intubados. Por esse motivo, torna-se cada vez mais importante que a população siga tomando todos os cuidados", recomenta Manduca.

A reportagem do Diário Popular entrou em contato com a assessoria do Hospital Escola da UFPel, que se limitou a informar que o estoque está tendo grande variabilidade no consumo diário dependendo da gravidade dos pacientes internados. "Houve um aumento significativo do consumo destes medicamentos, em razão da elevada ocupação dos leitos." diz a nota.

A Secretaria de Saúde do município explica que não tem conhecimento da situação, pois cada instituição cuida de seu estoque de medicamentos. No entanto diz já ter solicitado aos hospitais um relatório com as quantidades para monitoramento. "Alguns hospitais têm uma quantidade de medicação que pode durar 20 dias, ao mesmo tempo em que outro tem medicação para apenas quatro ou cinco dias", comenta Roberta Paganini, secretária de Saúde. Conforme a gestora, algumas instituições estão com receio de realizar o empréstimo dos medicamentos, pois temem faltar para atender seus pacientes.

Situação em Rio Grande

Os 20 leitos de UTI destinados para o tratamento de pacientes com Covid-19 na Santa Casa de Misericórdia de Rio Grande estão todos ocupados e com outros aguardando por vaga. O diretor técnico do hospital Evandro Augusto Oss, explica que a compra desses materiais para reposição do kit é feita em curto prazo. Segundo ele, na sexta-feira, os insumos disponíveis eram suficientes para atender apenas de dois a três dias, dependendo da quantidade de uso.

O diretor explica que é mantido contato com fornecedores para a compra dos medicamentos, mas a alta dos preços acabou limitando a capacidade de compra, feita em pequenos lotes. A aquisição é feita com recursos próprios da Santa Casa, que também recebe apoio financeiro de empresários e entidades. Ele ainda explica que há uma expectativa que na próxima semana os números de casos graves comecem a diminuir devido às medidas restritivas adotadas pelo governo do Estado e também o poder Executivo local, mas tudo dependerá dos cuidados que a população adotará.

O governo do Estado tem auxiliado os municípios com o envio desses medicamentos. Na última quinta-feira, foram encaminhados mais de 27 mil frascos de medicamentos do kit (Atracúrio, Etomidato e Morfina), quantidade que foi dividida para 30 hospitais gaúchos. Os remédios não fazem parte da assistência farmacêutica do Estado, mas devido aos relatos de baixo estoque, foi feita uma compra excepcional para garantir a continuidade da assistência. A necessidade reflete o cenário nacional de alta demanda por anestésicos e bloqueadores neuromusculares.

Importância do kit

O médico Evandro Oss é cirurgião cardiovascular, e explica que para manter a ventilação e a oxigenação adequada, é necessário uma dose alta dos medicamentos presentes no kit. "Além da grande dificuldade de tratar pacientes em leitos de UTI, a angustia de que não vai conseguir ter o remédios adequados para fazer o tratamento gera uma sensação de risco muito grande. Quanto mais rápido conseguir solucionar a questão de medicamentos melhor, nos traria mais tranquilidade", comenta Oss.

Anvisa se pronuncia

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária ( Anvisa) divulgou nesta sexta-feira uma nota técnica sobre situações de falta de produtos necessários para a intubação em hospitais e em estoques do Ministério da Saúde e de secretarias estaduais de Saúde. A agência diz que tem trabalhado em várias frentes para reduzir o risco de desabastecimento, entre elas agilizar o processo de aprovação do registro de medicamentos com o objetivo de fornecer os produtos em curto prazo, após apresentação de provas de eficácia, segurança e qualidade das quais a empresa já dispõe e quais provas ainda faltam para que o dossiê de registro esteja completo.

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